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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

No meio do caminho.









Na vida a gente pega as pedrinhas que vão aparecendo na nossa jornada e as vai guardando nos bolsos.

O problema é que com o passar dos anos, essas pedrinhas se acumulam e viram um peso que carregamos sem o menor sentido.


Hoje, já no meio do caminho, paro, olho bem para a pedra e escolho se quero ou não levá-la comigo.

A maior parte jogo fora, ou deixo ali mesmo na beira da estrada para que cada um de nós cumpra seu destino.



Não há também como não lembrar de Drummond:


No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra



Carlos Drummond de Andrade
In Alguma Poesia
Ed. Pindorama, 1930




segunda-feira, 24 de agosto de 2009

No caminho com Maiakóvski


A gentil amiga Lê, do blog Brinquedo de Mulher, teve a delicadeza de transcrever o poema inteiro (que eu não conhecia) do Eduardo Alves Costa.

Mesmo que já estejamos em contexto bem diferente daquele em que foi composto, vale a pena passear pelos versos e mensagem ainda muito atuais.



No caminho com Maiakóvski
Eduardo Alves Costa.

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor e o que vejo
e acabo por repetir não mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,o coração grita
- MENTIRA!





segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Sincronicidade

Tem um poema que li há muitos e muitos anos atrás, e nunca me saiu da cabeça.

Muitas vezes lembro de alguns versos em delicadas situações do dia-a-dia.

Nunca soube o nome do poeta.

Domingo cedinho, como de costume fiquei zapeando a TV até parar por acaso no canal Canção Nova. Era o instigante Pe. Fábio de Melo, de quem já tinha ouvido falar, mas nunca ouvira falando.

Aparentemente encantava sua platéia...

Segunda-feira cedo, encontro com uma querida colega de trabalho. Me oferece pela primeira vez a leitura de um livro....

"Quem me roubou de mim"

Autor: Pe. Fábio de Melo.

Abro numa folha qualquer e leio:

"Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada.

Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada."

Autor: Eduardo Alves Costa

Pensei aqui com meus botões... Jung, essa semana os sinais começaram a todo vapor.



terça-feira, 27 de maio de 2008

Os Argonautas

Caetano Veloso

O barco, meu coração não aguenta
Tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta
O dia, o marco, meu coração, o porto, não
Navegar é preciso, viver não é preciso (2x)
O barco, noite no céu tão bonito
Sorriso solto perdido
Horizonte, madrugada
O riso, o arco, da madrugada
O porto, nada
Navegar é preciso, viver não é preciso (2x)
O barco, o automóvel brilhante
O trilho solto, o barulho
Do meu dente em tua veia
O sangue, o charco, barulho lento
O porto silêncio
Navegar é preciso, viver não é preciso (2x)


O barco, meu coração não aguenta
Tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta
O dia, o marco, meu coração, o porto, não
Navegar é preciso, viver não é preciso (2x)
O barco, noite no céu tão bonito
Sorriso solto perdido
Horizonte, madrugada
O riso, o arco, da madrugada
O porto, nada
Navegar é preciso, viver não é preciso (2x)
O barco, o automóvel brilhante
O trilho solto, o barulho
Do meu dente em tua veia
O sangue, o charco, barulho lento
O porto silêncio
Navegar é preciso, viver não é preciso (2x)


Navegar é preciso; viver não é preciso.

Fernando Pessoa

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:

"Navegar é preciso; viver não é preciso".

Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Leminski

Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.

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