Na vida a gente pega as pedrinhas que vão aparecendo na nossa jornada e as vai guardando nos bolsos.
O problema é que com o passar dos anos, essas pedrinhas se acumulam e viram um peso que carregamos sem o menor sentido.
Hoje, já no meio do caminho, paro, olho bem para a pedra e escolho se quero ou não levá-la comigo.
A maior parte jogo fora, ou deixo ali mesmo na beira da estrada para que cada um de nós cumpra seu destino.
Não há também como não lembrar de Drummond:
No meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra
Carlos Drummond de Andrade
In Alguma Poesia
Ed. Pindorama, 1930


